Citações de grandes autores para refletir...

08
Mar 11

Tendo agora chegado ao fim da nossa análise breve e muito incompleta dos problemas da filosofia, será vantajoso que, para concluir, consideraremos qual é o valor da filosofia e porque deve ser estudada. É da maior necessidade que examinemos esta questão, tendo em conta que muitas pessoas, sob a influência da ciência ou de afazeres práticos, se inclinam a duvidar de que a filosofia seja algo melhor do que frivolidades inocentes mas inúteis, distinções demasiado subtis e controvérsias sobre matérias acerca das quais o conhecimento é impossível.

 

Esta visão da filosofia parece resultar em parte de uma concepção errada dos fins da vida e em parte de uma concepção errada do género de bens que a filosofia procura alcançar. A física, por meio de invenções, é útil a inúmeras pessoas que a ignoram completamente, pelo que seu o estudo é recomendado, não apenas, ou principalmente, devido ao efeito no estudante, mas sim devido ao efeito na humanidade em geral. A filosofia não tem esta utilidade. Se o estudo da filosofia tem algum valor para os que não estudam filosofia, tem de ser apenas indirectamente, por intermédio dos seus efeitos na vida daqueles que a estudam. Portanto, se o valor da filosofia deve ser procurado em algum lado, é principalmente nestes efeitos.

 

Mas mais, se não queremos que a nossa tentativa para determinar o valor da filosofia fracasse, temos de libertar primeiro as nossas mentes dos preconceitos daqueles a que se chama erradamente homens "práticos". O homem "prático", como se usa frequentemente a palavra, é aquele que reconhece apenas necessidades materiais, que entende que os homens devem ter alimento para o corpo, mas esquece-se da necessidade de fornecer alimento à mente. Mesmo que todos os homens vivessem desafogadamente e que a pobreza e a doença tivessem sido reduzidas ao ponto mais baixo possível, ainda seria necessário fazer muito para produzir uma sociedade válida; e mesmo neste mundo os bens da mente são pelo menos tão importantes como os do corpo. É exclusivamente entre os bens da mente que encontraremos o valor da filosofia; e somente aqueles que não são indiferentes a estes bens podem ser convencidos de que o estudo da filosofia não é uma perda de tempo.

 

Como todos os outros estudos, a filosofia, aspira essencialmente ao conhecimento. O conhecimento a que aspira é o que unifica e sistematiza o corpo das ciências e o que resulta de um exame crítico dos fundamentos das nossas convicções, dos nossos preconceitos e das nossas crenças. Mas não se pode dizer que a filosofia tenha tido grande sucesso ao tentar dar respostas exactas às suas questões. Se perguntarmos a um matemático, a um mineralogista, a um historiador ou a qualquer outro homem de saber, que corpo exacto de verdades a sua ciência descobriu, a sua resposta durará o tempo que estivermos dispostos a escutá-lo. Mas se colocarmos a mesma questão a um filósofo, se for sincero terá de confessar que o seu estudo não chegou a resultados positivos como aqueles a que chegaram outras ciências. É verdade que isto se explica em parte pelo facto de que assim que se torna possível um conhecimento exacto acerca de qualquer assunto, este assunto deixa de se chamar filosofia e passa a ser uma ciência separada. A totalidade do estudo dos céus, que pertence actualmente à astronomia, esteve em tempos incluído na filosofia; a grande obra de Newton chamava-se "os princípios matemáticos da filosofia natural". Analogamente, o estudo da mente humana, que fazia parte da filosofia, foi agora separado da filosofia e deu origem à ciência da psicologia. Assim, a incerteza da filosofia é em larga medida mais aparente do que real: as questões às quais já é possível dar uma resposta exacta são colocadas nas ciências, e apenas aquelas às quais não é possível, no presente, dar uma resposta exacta, formam o resíduo a que se chama filosofia.

 

Contudo, esta é apenas uma parte da verdade sobre a incerteza da filosofia. Há muitas questões ― entre elas aquelas que são do maior interesse para a nossa vida espiritual ― que, tanto quanto podemos ver, continuarão sem solução, a menos que as capacidades do intelecto humano se tornem de uma ordem completamente diferente da actual. O universo tem uma unidade de plano ou de propósito, ou é uma confluência fortuita de átomos? A consciência é um componente permanente do universo, dando a esperança de que a sabedoria aumente indefinidamente, ou é um acidente transitório num pequeno planeta no qual a vida tem por fim de se tornar impossível? O bem e o mal são importantes para o universo ou apenas para o homem? Estas são questões que a filosofia coloca e a que diferentes filósofos responderam de diferentes maneiras. Mas, quer seja ou não possível descobrir respostas de outro modo, parece não ser possível demonstrar que alguma das respostas sugeridas pela filosofia é verdadeira. No entanto, por muito pequena que seja a esperança de descobrir uma resposta, a filosofia tem o dever de continuar a examinar estas questões, a consciencializar-nos da sua importância, a examinar todas as respostas que lhes são dadas e a manter vivo o interesse especulativo pelo universo, que pode ser destruído se nos limitarmos ao conhecimento que podemos verificar com exactidão.

 

É verdade que muitos filósofos defenderam que a filosofia pode estabelecer a verdade de determinadas respostas a estas questões fundamentais. Eles acreditaram ser possível provar por demonstrações rigorosas que o mais importante nas crenças religiosas é verdadeiro. Para que possamos julgar estas tentativas, é necessário examinar o conhecimento humano e formar uma opinião quanto aos seus métodos e às suas limitações. Seria insensato pronunciarmo-nos dogmaticamente sobre um assunto destes, mas se as investigações dos capítulos anteriores não nos induziram em erro, somos forçados a renunciar à esperança de encontrar provas filosóficas das crenças religiosas. Não podemos, portanto, incluir como parte do valor da filosofia qualquer conjunto de respostas exactas a essas questões. Por esta razão, mais uma vez, o valor da filosofia não depende de qualquer pretenso corpo de conhecimentos que podemos verificar com exactidão e que aqueles que a estudam adquiram.

 

Na verdade, o valor da filosofia tem de ser procurado sobretudo na sua própria incerteza. O homem que não tem a mais pequena capacidade filosófica, vive preso aos preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época ou da sua nação, e das convicções que se formaram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento reflectido da sua razão. Para um tal homem o mundo tende a tornar-se definido, finito, óbvio; os objectos vulgares não levantam quaisquer questões e as possibilidades invulgares são desdenhosamente rejeitadas. Assim que começamos a filosofar, pelo contrário, verificamos, como vimos nos capítulos iniciais, que mesmo os objectos mais comuns levam a problemas a que apenas podemos dar respostas muito incompletas. Embora a filosofia seja incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, é capaz de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do costume. Assim, embora diminua o nosso sentimento de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta muito o nosso conhecimento do que podem ser; elimina o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca viajaram na região da dúvida libertadora e, ao mostrar as coisas que são familiares com um aspecto invulgar, mantém viva a nossa capacidade de admiração.

 

Para além da sua utilidade na revelação de possibilidades insuspeitadas, a filosofia adquire valor ― talvez o seu principal valor ― por meio da grandeza dos objectos que contempla e da libertação de objectivos pessoais e limitados que resulta desta contemplação. A vida do homem instintivo está fechada no círculo dos seus interesses privados. A família e os amigos podem estar incluídos, mas o mundo exterior não é tido em conta excepto na medida em que possa auxiliar ou impedir o

que entra no círculo dos desejos instintivos. Numa vida assim há algo de febril e limitado, comparada com a qual a vida filosófica é calma e livre. O mundo privado dos interesses instintivos é um mundo pequeno no meio de um mundo grande e poderoso que, mais cedo ou mais tarde, reduzirá o nosso mundo privado a ruínas. A menos que consigamos alargar os nossos interesses de modo a incluir todo o mundo exterior, somos como uma guarnição numa fortaleza sitiada, que sabe que o inimigo impede a sua fuga e que a rendição final é inevitável. Numa vida assim não há paz, mas uma luta constante entre a persistência do desejo e a incapacidade da vontade. De uma forma ou doutra, se queremos que a nossa vida seja grande e livre, temos de fugir desta prisão e desta luta.

 

Uma forma de fugir é por intermédio da contemplação filosófica. Na sua perspectiva mais ampla, a contemplação filosófica não divide o universo em dois campos hostis ― amigos e inimigos, prestável e hostil, bom e mau ― vê o todo com imparcialidade. Quando é pura, a contemplação filosófica não procura provar que o resto do universo é semelhante ao homem. Toda a aquisição de conhecimento é um alargamento do Eu, mas alcança-se melhor este alargamento quando ele não é directamente procurado. É obtido quando o desejo de conhecimento é apenas operativo, por um estudo que não deseja antecipadamente que os seus objectos tenham esta ou aquela característica, mas adapta o Eu às características que encontra nos seus objectos. Este alargamento do Eu não é obtido quando, aceitando o Eu como é, tentamos mostrar que o mundo é de tal modo semelhante a este Eu que é possível conhecê-lo sem ter de admitir o que parece estranho. O desejo de provar isto é uma forma de auto-afirmação e, como toda a auto-afirmação, é um obstáculo ao crescimento do Eu que ela deseja e de que o Eu sabe ser capaz. Na especulação filosófica como em tudo o mais, a auto-afirmação vê o mundo como um meio para os seus próprios fins; considera, assim, o mundo menos importante do que o Eu e o Eu limita a grandeza dos seus bens. Na contemplação, pelo contrário, partimos do não-Eu e por intermédio da sua grandeza alargamos os limites do Eu; por intermédio da infinidade do universo a mente que o contempla participa da infinidade.

 

Por esta razão, as filosofias que adaptam o universo ao Homem não promovem a grandeza de alma. O conhecimento é uma forma de união do Eu e do não-Eu e, como todas as uniões, é prejudicado pelo domínio e, portanto, por qualquer tentativa de forçar o universo a conformar-se ao que encontramos em nós. Há uma ampla tendência filosófica para o ponto de vista que nos diz que o Homem é a medida de todas as coisas, que a verdade é feita pelo homem, que o espaço, o tempo e o mundo dos universais são propriedades da mente e que, se existir algo que não tenha sido criado pela mente, é incognoscível e não tem qualquer importância para nós. Se as nossas discussões anteriores estavam correctas, este ponto de vista é falso; mas para além de ser falso, tem o efeito de despojar a contemplação filosófica de tudo o que lhe dá valor, uma vez que a confina ao Eu. Aquilo a que chama conhecimento não é uma união com o não-Eu, mas um conjunto de preconceitos, de hábitos e de desejos, que constituem um véu impenetrável entre nós e o mundo fora de nós. O homem que encontra prazer numa teoria do conhecimento destas é como o homem que nunca deixa o círculo doméstico por receio de que a sua palavra possa não ser lei.

 

A verdadeira contemplação filosófica, pelo contrário, encontra satisfação em todo o alargamento do não-Eu, em tudo o que engrandeça os objectos contemplados e, por essa via, o sujeito que contempla. Tudo o que na contemplação seja pessoal ou privado, tudo o que dependa do hábito, do interesse pessoal ou do desejo, deforma o objecto e, por isso, prejudica a união que o intelecto procura. Ao criarem desta forma uma barreira entre o sujeito e o objecto, estas coisas pessoais e privadas tornam-se uma prisão para o intelecto. O intelecto livre verá como Deus pode ver, sem um aqui e agora, sem esperanças nem temores, sem o empecilho das crenças vulgares e dos preconceitos tradicionais, calmamente, desapaixonadamente, no desejo único e exclusivo de conhecimento ― conhecimento tão impessoal e tão puramente contemplativo quanto o homem possa alcançar. Também por este motivo, o intelecto livre dará mais valor ao conhecimento abstracto e universal, no qual os acidentes da história privada não entram, do que ao conhecimento originado pelos sentidos e dependente, como este conhecimento tem de ser, de um ponto de vista exclusivo e pessoal e de um corpo cujos órgãos dos sentidos deformam tanto quanto revelam.

 

A mente que se habituou à liberdade e à imparcialidade da contemplação filosófica conservará alguma desta mesma liberdade e imparcialidade no mundo da acção e da emoção. Encarará os seus propósitos e desejos como partes do todo, com a falta de persistência que resulta de os ver como fragmentos minúsculos num mundo no qual nada mais é afectado por qualquer acção humana. A imparcialidade que, na contemplação, é o desejo puro da verdade, é a mesma qualidade da mente que, na acção, é a justiça e na emoção é o amor universal que pode ser dado a tudo e não apenas aos que consideramos úteis ou dignos de admiração. Por conseguinte, a contemplação alarga não apenas os objectos dos nossos pensamentos, mas também os objectos das nossas acções e das nossas afecções; faz-nos cidadãos do universo e não apenas de uma cidade murada em guerra com tudo o resto. A verdadeira liberdade humana e a sua libertação da sujeição a esperanças e temores mesquinhos consiste nesta cidadania do universo.

 

Assim, resumindo a nossa discussão sobre o valor da filosofia, a filosofia deve ser estudada, não por causa de quaisquer respostas exactas às suas questões, uma vez que, em regra, não é possível saber que alguma resposta exacta é verdadeira, mas antes por causa das próprias questões; porque estas questões alargam a nossa concepção do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a certeza dogmática que fecha a mente à especulação; mas acima de tudo porque, devido à grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também se eleva e se torna capaz da união com o universo que constitui o seu mais alto bem.

 

(Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, Oxford University Press, Oxford, 2001, pp. 89-94.) - Tradução de Álvaro Nunes


Publicado por Naná Naná às 07:17

 

 

 

 

 

 

Publicado por Naná Naná às 07:15
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"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda."

 

 

 

(Clarice Lispector-In: 'A Descoberta do Mundo')

 

 

 

 

Publicado por Naná Naná às 07:12

 

 

 

"O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem - uma corda sobre o abismo. Perigosa travessia, perigoso-a-caminho, perigoso olhar-pra-trás, perigoso arrepiar-se-e-parar. O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir".

 

 

 

(Friedrich Nietzsche in - 'Assim falou Zaratustra' - pág. 227)

 

 

 

 

 

Publicado por Naná Naná às 07:10
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‎"Nada, ao que parece, pode atingir a consciência a partir do primeiro sistema sem passar pela segunda instância; e a segunda instância não permite que passe coisa alguma sem exercer seus direitos e fazer as modificações que julgue adequadas no pensamento que busca acesso à consciência."

 

 

(Sigmund Freud in - 'A interpretação dos sonhos' - Parte 1, pag. 178)

Publicado por Naná Naná às 07:09

A Analogia Filosófica de Platão, é condizente e coerente com a realidade; A realidade está envolta à estereotipação, ou até mesmo intrínsecamente enleada à coação do ser humano, em decorrência da "suposta" superioridade de outrem... Uma sociedade construída pelo "apoderamento" sob ordens abusivas, sempre trará consequências drásticas. Existe o poder e a autoridade, e ambos são distintos. O poder é abusivo, já a autoridade, incita à ordem, em âmbitos mais passivos, sensatos e democráticos, menosprezando a violação moral e ética das pessoas.

 

(Naná)

 


Publicado por Naná Naná às 06:59
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Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.

 

"A Censura de Um Deve Pesar Mais que uma Plateia de Ignorantes" - [William Shakespeare]

Publicado por Naná Naná às 06:56

É inútil alongar-me demoradamente sobre a importância da autoridade. São muito poucas as pessoas civilizadas capazes de uma existência perfeitamente autónoma ou tão-só de juízo independente. Não nos é possível representar em toda a sua amplitude a necessidade de autoridade e a fraqueza interior dos seres humanos.

 

 

Sigmund Freud in - As palavras de Freud

Publicado por Naná Naná às 06:48

Diz-se que quem modifica de tempos a tempos as suas idéias não merece qualquer confiança, pq faz supor que as suas últimas afirmações são tão errôneas como as anteriores. E, por outro lado, quem mantém as suas primeiras idéias e não as abandona facilmente, passa por teimoso e iludido. Perante estes 2 juízos opostos da crítica, há só 1 opção a fazer: permanecer-se aquilo que se é, e seguir-se apenas o próprio juízo.

 

 

Sigmund Freud in " As Palavras de Freud"

Publicado por Naná Naná às 06:39

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